Eu já sonhei ser modelo. Depois atriz. Depois cantora. Qualquer coisa que me colocasse num palco. Sim, fiz curso de teatro, depois curso de dança, depois aula de violão. Mas tudo isso durou pouco.
Não fui atrás de nenhum desses sonhos. Fui escrever sobre tudo isso e virei uma apaixonada pelas palavras. Nisso, persisti.
Não persisti nos meus outros sonhos porque me escondi atrás do meu nariz arrebitado, dos meus dentes imperfeitos, das minhas pernas grossas, do meu cabelo volumoso e da minha voz grave. Sim, tudo isso ainda faz parte de mim. Não fiz plástica, não usei aparelho, não coloquei silicone, não fiz musculação, (confesso que faço sim, escova progressiva), nem fonoaudiologia. Mais tarde, a essas imperfeições vieram se juntar, estrias, celulite, olheiras, cabelos brancos e uma barriguinha.
Sim, eu tenho 03 filhos. O que reforça as olheiras. E a barriguinha (prá não ser exagerada...). Mas nesse contexto elas perdem por completo a sua importância.
Sim, eu tenho 35 anos.
Não, eu não uso maquiagem. Talvez porque ao longo do tempo eu tenha aprendido a me aceitar assim, quase exatamente como sou. Talvez porque eu me ache, hoje, mais bonita do que realmente sou. Talvez porque eu não fique esperando a opinião do outro para me sentir assim. Quando eu me olho no espelho, fico feliz no papel de mim mesma.
Sim, eu gosto de aparecer. Isso me diverte e me faz levar a vida menos a sério.
Não, atualmente eu não pratico esportes. Porque sou preguiçosa também.
Sim, eu tenho muitas roupas. Sou consumidora compulsiva. Ainda estou me curando. Lentamente, que é como as verdadeiras curas funcionam. E a cura está em expor meus exageros, transformando o vício em uma coisa boa. Sim, eu já gastei demais, já me endividei, já sofri por isso. Já me culpei. Depois descobri que me culpar só me faria insistir no vício. Sim, eu me perdoei.
Sim, eu já sofri por amor. Muitas vezes. Já fiz sofrer também. E já perdi pessoas importantes, mãe, avô, tios e um filho. E junto com ele parte da minha capacidade de sonhar. Não, não foi fácil. Mas reencontrei a alegria. Não morri com ele.
Sim, eu só tenho a agradecer. Porque amei meu filho mais que tudo e fui amada. Porque lembro que ao sorrir ele me mostrava que valeu a pena. Sim, faltaram algumas coisas – mostrar a vida como ela é para ele, por exemplo. Faltou ele conhecer muitas coisas. Mas sobrou amor. E não faltou dizer nada. Nem ouvir.
Já vivi muitas coisas. E não me canso de me surpreender com a vida. Sim, para melhor.
Sim, eu me sinto sozinha. Mas não me assusto mais com isso. Tenho me achado ótima companhia.
Sim, eu me orgulho. Não das minhas perdas, mas da maneira como lido com elas. E de estar completando 24 anos de auto-análise. Desde os 11 escrevo sobre a minha dificuldade de estar no mundo. Tanto tempo, que foi ficando fácil. Já fiz as pazes comigo e com o mundo.
Sim, eu sou a filha mais velha de um pai que tem 04 filhos. E já fui insuportável. Não, eu não era ouvida. Eu me sentia abandonada. Só falava em tom de choro. Sim, eu me sentia feia. Sim, eu cortei os cabelos pela primeira vez aos 14 anos e nunca mais deixei crescer. Porque isso me libertou. Sim, foi uma alegria descobrir que a beleza estava dentro de mim, e não nos cabelos.
Sim, eu me tatuei 09 vezes. Isso também me liberta e me ajuda a levar a vida de um jeito mais leve.
Sim, eu gosto de me vestir bem. E demorei muito tempo para entender que isso era prioridade pra mim.
Sim, eu gosto de moda. Não a moda ditada pelo último São Paulo Fashion Week. Gosto de moda na coleção que eu mesma lanço ao fazer minhas escolhas. Gosto do desfile que começa a cada dia na hora de me vestir. Sim, essa é a minha forma de fazer moda.
Sim, eu poso de modelo. E me mostro, sem medo. Não, as fotos não têm retoque de photoshop. E eu não tenho uma equipe para me vestir. Sim, tenho amigos talentosos que topam a minha "viagem" todos os dias. Sim, tenho sorte.
Sim, eu gosto de aparecer. E adoro elogios. Eles fazem do outro o meu espelho e isso é muito bonito. Sei elogiar também. E sempre que o faço, é sincero.
Sim, estou em lua de mel com a modelo que existe em mim. Que tem olheiras, celulite, cabelos brancos e nenhuma maquiagem. Sim, estou em lua de mel também com a escritora que existe em mim.
Sim, eu convivo diariamente com uma ou outra frustração. E nenhuma é grande o suficiente para me fazer infeliz. Sim, eu vejo pessoas à minha volta. E muitas delas sofrem também. E a gente troca.
Sim, de vez em quando sinto inveja. Mas quando isso acontece, procuro a saída mais bem-humorada. Sim, é muito bom quando você consegue dar ao outro apenas o melhor que está em você.
Sim, eu ouço som bem alto no carro. Coloco os óculos escuros e canto a caminho do trabalho. Sim, hoje atraio olhares. Nem todos são bons. Mas aprendi a lidar com isso.
Sou triste e sou alegre. Sim, sou eu.
Sim, eu sou mulher. E sou modelo, atriz, cantora. Trabalho num lugar onde posso exercer tudo isso. Construí meu próprio palco.
Sim, eu me acho poderosa. Mesmo porque, é comigo que posso contar. Sim, em alguns momentos percebo que a imagem que involuntariamente construí é diferente de mim. Mas é parecida também. E eu não tenho controle sobre isso.
Hoje vou assim. Vestida dos meus sins e dos meus nãos. Vestida de mim mesma. Praticamente nua. Livre de falsas identidades e convidando você a se libertar também...
Hoje vou assim. Vestida dos meus sins e dos meus nãos. Vestida de mim mesma. Praticamente nua. Livre de falsas identidades e convidando você a se libertar também...
