Antes de você nascer, filha, meu mundo andava tão cartesiano.
Minhas dores, que não foram poucas, me fizeram aceitar apenas o que era certo e irrefutável.
Cheguei a pensar que meu coração não aguentaria.
Não havia mais entrelinhas, nem encantamentos, nem inocência. Tudo tão endurecido, tão sedimentado.
Mas Deus, seja qual for a forma que o defina, me deu mais uma chance. Afinal, não se pode fugir da dor fugindo da vida...
Então, de repente : você. Bem ali. Em minhas mãos.
Vida. Vida. Vida.
Se não tivesse te chamado Marina, te chamaria Vida, porque é assim que és prá mim : Vida.
E tudo começou a se ajeitar mais uma vez.
Comecei a acreditar de novo, a aceitar, a agradecer, a compreender...
Você filha, também foi minha mãe.
Nasci de novo por você...
E para você me fiz inteira, me fiz amor, me fiz calor.
Porque esse nosso amor vem de muito longe...
Vem de muito tempo...
Vem de nossas almas... porque elas sempre se amaram...
